A industrialização do Parto

Para responder as perguntas do seguidor Otávio Ferrari:
” Otávio : Para um leigo, o texto é de fácil assimilação e convincente. Fica a indagação, porque a sabedoria holandesa não se irradiou pelo mundo??Parabéns pelo trabalho iniciado e augúrios de feliz caminhada pela frente.
Mayra: Boa Pergunta! Por que será? O que você responderia?
Otávio: Em princípio, cases de sucesso são imitados.?Por que isso não aconteceu? Algumas hipóteses: falta de divulgação do sistema obstétrico holandês, processo educacional menos eficiente em outros países, a tradição não respeitada, corporativismo de determinadas categorias profissionais, etc.?Acredito que o questionamento merece uma discussão mais ampla. Todos ganhariam com esse debate.
Mayra: Olá Otávio! ?Daria uma boa discussão mesmo…?Mas nesse caso de sucesso, na época, era visto como retrocesso, a idéia era modernizar, industrializar, contruir hospitais…?Fazer com que os parto acontecessem no hospital ao invés em casa com parteiras, corporativismo de determinadas categorias profissionais com certeza.? Até hoje o nome parteira é percebido como antigo… muitas pessoas nem sabem que elas ainda existem! Eu vou colocar um post sobre a industrialização do parto para podermos? entender um pouco melhor. Hoje o movimento é o contrário, alimentação orgânica, hábitos saudáveis, energia limpa, parto natural, parto em casa…”

(Por Mayra Calvette)

A industrialização da agropecuária e do parto se desenvolveu lado a lado durante o século XX.
Quais são as semelhanças?
A agricultura e o parto industrializado tem muitos pontos em comum. É como se a dominação da natureza , que tem sido base das nossas civilizações por muitos milênios, tivesse atingido outra ordem de magnitude. Um limiar foi ultrapassado.
Em ambos os casos houveram inovações que pareciam a solução de um problema. Por exemplo o uso generalizado de produtos químicos na agricultura pode ser claramente compreendido, pois reduziu drasticamente os custos, aumentou a produtividade, a variedade de produtos e o lucro dos agricultores. De modo similar, sempre existiu uma determinação feminina em superar os obstáculos do parto, o medo de morrer. Os avanços tecnológicos e as técnicas modernas e seguras de cesariana, diminuindo a mortalidade materna e neonatal.
Hoje estamos em um momento de questionamento quanto ao uso excessivo de tecnologia sem que seja necessário.
O progresso da agropecuária industrializada foi associado a uma serie de grandes avanços tecnológicos. Investimentos enormes se fizeram a fim de aproveitar a maquinaria que pouparia o trabalho humano. Desenvolveram-se junto as indústrias química e farmacêutica, através da utilização de fertilizantes sintéticos, herbicidas, inseticidas, tratamento dos animais com hormônios, antibióticos, produtos químicos assim como a produção em massa de animais para consumo humano.
Rudolf Steiner, que não conseguia dissociar seu interesse pelo desenvolvimento dos seres humanos com os das plantas e animais, ele já se preocupava com a idéia de alguns pecuaristas alimentarem as vacas com produtos animais. Chegou a afirmar em uma conferência em 1923 que se as vacas recebessem carne para comer, enlouqueceriam! Que foi o que aconteceu com a famosa doença da vaca louca. O movimento biodinâmico representou um aviso poderoso da ameaça que representa para humanidade a fria exploração dos recursos da Terra. O conceito antroposófico que as pragas e as doenças representam a maneira pela qual a natureza se livra de algo não sadio era em si um aviso.
Hoje sabemos o quanto a agropecuária industrializada, com o uso excessivo de produtos químicos, pode trazer malefícios para nossa saúde, solo, água, plantas e animais, enfim para o equilíbrio da nossa Mãe Terra. Por isso é crescente o número de pessoas que buscam uma alimentação natural e orgânica, preocupados não só com sua saúde, mas com o bem estar do planeta.
A humanidade não pode sobreviver sem redescobrir as leis da natureza segundo Ina May Gaskin, autora de Spiritual Midwifery. Diz que o primeiro passo deverá ser de reconsiderar a forma pela qual os bebês nascem e em nome das gerações por nascerem, deve-se parar com a destruição do solo através dos métodos agrícolas agressivos.
O parto industrializado tem como o fenômeno mais importante o aumento do controle do processo do parto pelos médicos. Enquanto a participação do médico no parto aumentava, o status e o papel da parteira minguavam. Não tinha a opção de oferecer-lhe treinamento adequado, a intenção era eliminá-las com o pretexto de melhorar a assistência. Porém os reais motivos eram econômicos. Como seriam treinados os médicos, senão com a população pobre que as parteiras assistiam?
Um médico e professor americano Joseph DeLee, em famoso artigo intitulado “O uso profilático do fórceps” observou que o parto é um “processo patológico”, recomendando o uso de rotineiro de fórceps e de episiotomia e sugerindo que a “paciente” fosse sedada. Ele teve tanta influência na década de 30 que a obstetrícia profilática já tinha se tornado a norma. Também foi no início do século que utilizava-se o “sono do crepúsculo” uma mistura de morfina com drogas amnésicas, assim a mulher não lembrava de nada. Cada vez mais os partos se concentravam em hospitais tornavam-se uma linha de produção, com cada vez mais impessoalidade. Em torno da década de 50 surgiram as técnicas modernas de cesariana, vale lembrar que em torno de 1920 o índice de cesariana nos Estados Unidos era em torno de 0,2% devido ao alto risco e de 5% em 1968.
Dentro de poucos anos a era eletrônica do parto estava estabelecida. Mais recentemente surgiu a analgesia peridural. Passou a existir um parto “normal” padronizado. Na idade do parto industrializado, a mãe não tem o que fazer. Ela é uma “paciente”.
Frédérick Leboyer, autor do Birth wothout violence, se perguntava como o homem, um animal racional, considerado inteligente, age de maneira tão irracional num momento tão importante? Referindo-se a dimensão cultural e a questão dos rituais agressivos que recebem os recém nascidos na sociedade industrializada.
Ao decorrer do século XX diversos movimentos que surgiram como reação à industrialização do parto. Existiam pouquíssimas informações disponíveis sobre parto. A ignorância levava ao medo e ao despreparo. O objetivo da informação é lembrar constantemente que existem alternativas ao parto industrializado, como temos escrito no Blog.
Estamos prestes a entrar na era pós-industrializada do parto, onde temos disponíveis os recursos tecnológicos e temos conhecimento da importância de se respeitar a natureza do parto. O movimento está crescendo, mas ainda não está consolidado.
A principal diferença é que uma série de desastre visíveis claramente tem induzido uma nova consciência no caso da agropecuária. A história do parto ainda não chegou à mesma etapa.

POR QUAL DESATRE ESTAMOS ESPERANDO?

Até agora, os desastres têm sido os fatores mais efetivos para conscientização. Os seres humanos tiveram muitas novas maneiras de tentar bancar Deus durante o século XX para depois se darem conta das desvantagens de não pensar nos efeitos a longo prazo. Tivemos que esperar até o começo de um novo milênio para testemunhar grandes reações populares quando as catástrofes da natureza se tornaram cada vez mais comuns.
No contexto científico atual, estamos numa posição que permite prever que tipo de desastre irá expor os perigos do parto industrializado.
Vários dados convergem dando uma grande importância às primeiras experiências de vida, particularmente à um período curto e crítico imediatamente após o parto. Por que será que grande parte das sociedades ritualisticamente perturbavam e perturbam o primeiro contato entre mãe e bebê? Por exemplo em transmitir a crença que o colostro é impuro e prejudicial? Durante milênios a estratégia básica para sobrevivência da maioria dos humanos tem sido a de dominar a natureza e dominar outros grupos de humanos. Existiu, portanto, uma vantagem evolutiva no desenvolvimento do potencial humanos para agressão, no lugar da capacidade de amar. Houve uma vantagem evolutiva em perturbar o nascimento e o primeiro contato entre mãe e bebê.
Estudos com animais, que vivem de maneira instintiva, mostram de forma mais clara a influência de intervenções durante o parto. Por exemplo, descobriu-se que quando as ovelhas parem com anestesia peridural, elas não cuidam dos seus filhotes. Outro estudo com macacos conseguiu estabelecer correlações entre distintas formas de perturbar o primeiro contato entre mãe e bebê após o parto e várias alterações do comportamento sexual e materno na vida adulta. Um estudo com ratas, mostrou que as ratas virgens se comportaram exatamente como mães após terem recebido uma injeção do sangue de ratas que tinham acabado de parir, pois logo após o parto existem no sangue hormônios capazes de induzir ao amor materno.
Pela primeira vez na história da humanidade, grande parte das mulheres dá à luz sem liberar o fluxo de hormônios do amor, o futuro da nossa civilização pode estar em risco.
Existem centenas de estudos publicados em jornais médicos e científicos conceituados que tratam de conseqüências a longo prazo do que acontece no “período primal” de vida, que inclui a vida do feto, perído perinatal e o ano após o nascimento. Quem tiver interesse pode acessar o banco de dados: www.birthworks.org/primalhealth .
Alguns estudos indicam que a poluição intra-uterina com produtos químicos tem conseqüências múltiplas a longo prazo. Eles detectam vínculos entre um estado de saúde na vida adulta, adolescência ou infância e o que aconteceu enquanto o bebê ainda estava dentro do útero. É possível perceber, que nossa saúde é, em grande parte, formada no útero.
Dois psicólogos identificaram 167 crianças que haviam perdido seu pai antes de nascer e 168 crianças que tinham perdido o pai no primeiro ano de vida. Todas foram criadas sem pai. Eles acompanharam essas crianças por 35 anos e encontraram que apenas aquelas que haviam perdido o pai enquanto estavam dentro do útero encontravam-se sob maior risco de criminalidade, alcoolismo e doenças mentais.
Outro estudo da Suécia, mostrou que o grau de sociabilidade era mais baixo dos filhos de mães que haviam solicitado um aborto sem êxito.
Quando os pesquisadores exploram o histórico das pessoas que expressaram algum tipo de capacidade deficiente de amar – a si próprio e/ou aos outros – geralmente encontram fatores de risco no parto.
Um exemplo da deficiência na capacidade de amar outro é a criminalidade juvenil. Um estudo de Adrian Raine que mostra que as complicações no parto é um fator de risco para o jovem de 18 anos se tornar um criminoso violento.
A capacidade deficiente de amar a si próprio pode ser expressa de diferentes formas. A forma de comportamento autodestrutivo mais séria é o suicídio. Em muitos países industrializados o suicídio é uma das principais causas de morte entre os adolescentes, há estudos que mostram correlação com o parto. Ressucitar o recém nascido foi um dos fatores de riscos mais significativos. A método utilizado para o suicídio também tem correlação com o parto, por exemplo aqueles que tiveram um parto difícil do ponto de vista mecânico, tendem a usar meios mecânicos violentos, como usar arma de fogo ou pular na frente de um trem.
Avaliando estatísticas em dois países comparáveis da Europa ocidental: Holanda e Itália. Na Holanda 80% das parteiras trabalham com idependência e em torno de 35% dos partos são domiciliares. A Itália tem o maior número de obstetras da Europa, poucas parteiras e maiores índices de partos cirúrgicos. O número oficial de casos criminosos por ano na Itália é de 41 por 1000 versus 15 por 1000 na Holanda.
Sugere-se que o que aconteceu durante a gestação tem relação com o momento de dar à luz. Se um bebê é fragilizado antes de nascer com os hormônios de estresse liberados pela mãe, é provável que o risco de sofrimento fetal durante o trabalho de parto aumentem. Apenas as complicações do parto podem ser observadas e registradas. Isso não significa que o início da cadeia de eventos tenha sido no dia do parto.
A atual falta de interesse nas conseqüências a longo prazo da utilização massiva de técnicas leva a perguntas inevitáveis sobre o nascimento do ser humano. O alto nível de intervenções, como indução e condução do parto, a cesariana, a anestesia peridural, a expulsão da placenta induzida por drogas, não é apenas efeito de uma grande incompreensão da fisiologia do parto. É também uma ilustração perfeita da miopia do homem tecnológico.
Hoje temos evidências da importância de perturbar o mínimo possível o processo de parto e o primeiro contato entre mãe e bebê, bem como melhorar nossa compreensão dos fatores que facilitam o nascimento ao máximo. Precisamos redescobrir as necessidades das parturientes, precisamos construir um modelo de atenção ao nascimento que respeite a fisiologia e a beleza que é o nascimento de uma nova vida. Como diz Deepak Chopra “Uma nova vida é uma nova fonte de esperança, uma possibilidade no caminho da humanidade”.

Artigo baseado no livro “O Camponês e a Parteira” de Michel Odent de 2002.
(Artigo publicado no Blog da Gisele em 2010 – http://blog.giselebundchen.com.br/ )

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3 Resultados

  1. Otávio disse:

    Gostei do post. Boa contribuição para a discussão. Concordo com a linha de raciocínio. Aguardarei manifestações de outros comentaristas para enriquecer o debate.

  2. Elis disse:

    Feliz por saber a origem do fim das parteiras, eu sou a favor do parto natural, e creio que deva haver um meio de um trabalho conjunto entre médicos e parteiras, doulas e familia da parturiente que deve ser informada de tudo desde o início da gestação, pois ela é a protagonista de tudo desde o início.Viva o parto humanizado!

    • Mayra disse:

      Olá Elis!
      Com certeza há um meio de um trabalho em conjunto!
      Assim que deveria ser! Todos são importantes e necessários…
      Cada profissional no seu lugar e a Mulher, bebê e família no centro, como principal protagonista.

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